terça-feira, 24 de novembro de 2009

Reinaldão!

Reinaldo Azevedo, colunista da Veja, foi entrevistado por Jo Soares ainda há pouco. Falou muitas verdades, fez algumas palhaçadas desnecessárias. Mas o que eu gostaria de salientar é que o ciclopismo (conceito que venho aprimorado faz um tempo como uma verdadeira arte de ver seletivamente, leia-se, ignorar o que é incomodo) não atua somente no governo. Azevedo com muita propriedade falou sobre a incapacidade do governo se dispor a ser criticado. E é verdade. Tal como eu já falava aos meus exiguissimos leitores, o ciclopismo esta imanentemente ao ufanismo excessivo. Pode se considerar o segundo uma decorrência natural do primeiro. Ora, quem se ufana demais, fa-o de em função de um endeusamento. De uma espécie de uso de vestimenta que expressa a infalibilidade. O governo Lula, em função do ciclopismo, não é propenso a ser criticado. Mino Carta, editor de revista que considero séria, quando critica demais já é acusados pelos ufanistas de "traição à esquerda nativa". Muito esquisito.

O problema real, acho eu, é que hoje em dia, quem critica (a Veja de Azevedo, por exemplo), critica não porque é cidadã, e sim porque tem interesses escusos. Critica inclusive em função de elementos escusos. O Globo adultera manchetes, fazendo-as claramente incompatíveis com o texto a que se referem, a Veja fala sobre o grampo, que foi um dos motivos deflagradores da perseguição contra Protógenes e cia, que simplesmente não aparece. Enfim, a tal da mídia que Azevedo toma como "fiscalizadora" não fiscaliza porque é sã, fiscaliza porque tem o dela pra tirar, tem um lucro posterior, uma ideologia a defender. É possível formar uma conjectura de que o Lula se porta de maneira tão agressiva contra a imprensa tucana porque é mais partidária que imprensa. De todo o modo, se este for o caso, não seria melhor o Lula repetir o ato de Obama nos states considerando a fox um partido político (dado o caráter eminentemente parcial pró-republicanos do canal)? Seria mais inteligente e mais honesto.

É importante lembrar que o ciclopismo não atinge apenas o governo Lula. Atinge também a mídia de direita. Ou vemos a Globo ou a Veja atacar Serra pela queda do Rodoanel no qual faltava  a viga de sustentação principal (!!!) ? A competência para decidir o caso Battisti é do Presidente da República e vemos algum orgão a criticar o canastrão Gilmar Mendes? Dilma melhorou do cancer e houve alguma capa da Veja relatando o feito? O próprio Mendes prolata dois habeas corpus em favor de criminoso notório e cada as críticas? Ou , caro leitor, quer me dizer que crítica são as falas graves do terrível William Bonner ( que chama o espectador do JN de Homer dos Simpsons, ou seja, barrigudo, burro, preguiçoso e pinguço) ou a ridícula Sandra Annemberg a noticiar coisas ruins com aquele arzinho de revolta para logo em seguida tascar uma receita de torta com nozes?

Em resumo, a mídia de direita, que é partidária e imoral, é ciclópica. O governo Lula, com imensos acertos, mas com falhas catastróficas também é ciclópico. Ninguém se salva neste quesito, não há santos.

Em tempo, gostei de uma expressão que Azevedo disse no programa que foi o "coitadismo". Nisso eu também concordo porque é um fenômeno que venho observando no Brasil que consiste no seguinte: bom é o pobre, ruim é o remediado e quem vem daí pra cima. Em outras palavras, ocorre neste país um imenso orgulho de passar dificuldade, porque, de certa forma, isso acabou virando sinônimo de caráter, de fibra moral. No entanto, se você já teve sorte de nascer de modo a não passar dificuldades (e nem precisa ser o rico, falo de classe média), você não tem direito de reclamar. É como se, já que o governo Lula prioriza os pobres (com razão), houvesse a desforra destes, que após anos de opressão renascem das cinzas revigorados e , usando o discurso das dificuldades da pobreza, envergonham aqueles que não passaram por dificuldades na vida. Parece que há uma certa vergonha de não ser pobre. De certa forma, aqueles que vivem bem e gozam das beneces matérias, constituem, nesta visão, a classe dos opressores que pisaram nos pobres durante todo esse tempo. E isso não é verdade. É um fenômeno ao meu ver natural diante das circunstâncias. Mas não pode ser fomentado por quem tem o poder (mídia, governo).  Não é porque eu tenho um carro e um laptop que farei parte da turma que oprimi a população carente, que mantém o povo na ignorância. Ainda mais, porque boa parte dos remediados economicamente trabalha duro para ter tudo o que tem e, além disso, há o elemento (muito importante) da sorte. Se você nasce bem, porque se envergonhar disso? Tem que se envergonhar é de nascer bem e ser um insensível social. Não atento à conjultura, não ajudar quem pode, votar mal, esperar as coisas cairem do céu, não tentar melhorar as coisas. (Isso é complexo). Porque, no fundo, o que todo mundo quer é passar para a linha dos remediados.

That`s all , folks!

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