sábado, 24 de outubro de 2009

Sobre a arte

No dia 9 de setembro deste ano eu fui ver OSESP tocar a última ópera da temporada: O cavaleiro da rosa. Uma obra lindíssima tocada por uma orquestra inspirada acompanhando cantoras (porque as óperas de Strauss são basicamente óperas para cantoras) que, em estado de graça, vocalizaram as idéias da partitura da melhor maneira possível. A grande exceção masculina no elenco dominado por mulheres é o personagem do Barão Ochs, que na ocasião foi animado soberbamente pelo baixo Franz Hawlatta. O final do segundo ato, no qual o barão tem o palco só pra si, foi de botar o teatro a baixo. Mas acho que, mesmo sendo uma comédia com pitadas de melancolia, o momento orgástico da obra é o trio final, dramático e intenso como nunca, no qual a Marechala, o Cavaleiro e a jovem Sophie cantam, simultaneamente a alegria de um casal que se forma e a tristeza a de um casal que termina, assim como aludem à percepção do tempo, implacável para com todos. Este trio final foi o Ó. Ouvir e , porque não, ver aquele som todo ecoando pelas paredes da sala.                                                                    

Difícil exprimir em palavras a sensação do momento em que a música eleva-se por si própria sobre a platéia, parecendo ganhar vida (ou perder, dependendo do momento). Mas sei dizer que foi genial. A orquestra trabalhou muito bem sob a regência de Sir Richard Armstrong e a impressão dá, ao término da récita, é de que por um momento você se sentiu especial em presenciar algo. E isso, hoje em dia, em tempos de pasteurização cultural e culto à burrice e a insensibilidade, é coisa por demais rara.

Hoje, dia 24 de outubro, assisti um belo filme chamado O Puxador de Riquixá. Esse filme é de 1958, dirigido por Hiroshi Inagaki. Foi ganhador do Leão de Ouro no festival de Veneza do mesmo ano. Belos filmes hoje em dia são raros. Negócio é recorrer ao passado. Este filme é bem como uma poesia: sútil. E são nessas sutilezas que o diretor constrói um roteiro baseado em um dos personagens mais cativantes que já vi, Matsu, interpretado por um maravilhoso Toshiro Mifune. O puxador de riquixá bronco e sem estudo de quem emana uma humanidade tão grande quanto oculta. A história gira em torno de sua relação com uma mãe recentemente viúva e seu filho. Não sou dos maiores especialistas em cinema, mas gostei da direção de Inagaki, desde o plano de câmera da primeira cena, viajando do teto para filmar os personagens através das portas do cômodo, até a cena em que Matsu ignora o seu passageiro para atenção ao menino na rua. A trilha sonora é inspiradora assim como a fotografia cumpre bem o seu papel.

Tá certo que é um filme velho que pode causar resistência do possível expectador, mas acho que deve se fazer um esforço para fugir do comodismo e se desafiar com algo que não venha da tão pobre e imediatista indústria cultural da atualisade. Outro dia quero falar um pouco do porque que eu acho que as pessoas resistem à arte tido como complexa ou elitista. Por hoje chega... Escrevi sobre filme e música hoje porque são coisas que muito me agradam e também porque , apesar da vontade, de escrever sobre política, sociedade e etc, não é todo dia que se tem disposição pra avaliar a falta de inteligência que ingessa a nossa pobre sociedade.

domingo, 4 de outubro de 2009

Honduras

       Honduras é um caso sintomático da dicotomia midiática e ideológica com pitadas de ciência jurídica. Honduras é um país subalterno historicamente pressionado por elites que se refestelam sobre a grande massa oprimida. Surge um presidente que resolve jogar do lado dos oprimidos e uma crise se instaura. Nenhuma surpresa. O que se segue após sim é um confronto dos grandes.

       Golpe ou não golpe?

     Zelaya queria convocar uma constituinte. Dalmo Dallari menciona em ser artigo para o OI que se tratava de tentativa de reforma. O principal escopo de Zelaya era a permanência no poder. Dallari mantém a coerência quando nega, tecnicamente, a existência de um golpe pois uma reforma que pretendesse mudar a norma que impede a reeleição do presidente (cláusula pétrea, Art. 239) ensejaria sanção para o propoente: afastamento do cargo e impedimento de exercer qualquer função pública por dez anos. Nesta norma vê-se claramente uma preocupação com a manutenção democrática. O problema com o argumento de Dallari é que não se tratava de reforma e sim de consultar a população para a feitura de nova carta constitucional. E tal discrepância retira fatalmente a credibilidade de seu argumento.

       Paulo César Negrão de Lacerda, procurador da fazenda nacional, em artigo para o CONJUR, faz o contraponto ao afirmar que houve golpe uma vez que o due process of law não teria sido respeitado. Lacerda se mostra espantado com a celeridade inédita de um pedido impetrado pelo MP de Honduras na sexta que foi consumado no domingo próximo, pegando o presidente hondurenho literalmente de calças curtas, prendendo e exilando-o ilegalmente. Não houve chance para o princípio ultra básico da ampla defesa e do contraditório, configurando um flagrante desrespeito a este mesma constituição que os opositores de Zelaya dizem defender. Além disso, por se tratar de convocar o poder constituinte originário, Zelaya nada queria com reforma do famigerado artigo 239. Tecnicamente, não haveria motivos para sustentação do afastamento do presidente hondurenho segundo Lacerda.

       Neste caso, parece que o procurador da fazenda nacional ganhar por K.O.

       Desdobramentos políticos

      Complicado mesmo é analizar a dicotomia ideológica do episódio. De fato, houve um golpe de estado, tecnicamente. Não respeitaram os direitos do presidente eleito por sufrágio universal. Ao que parece, na primeira oportunidade que surgiu, a direita hondurenha aproveitou o cheiro (somente cheiro) de inconstitucionalidade exalado pela proposta de Zelaya e fabricaram todo um incêndio para conseguir limar o presidente de seu posto. Puro factóide. A direita, elitista, indecente, mais uma vez trabalha usando de ardil para conseguir seus propósitos. Até uma carta de renúncia supostamente redigida pelo presidente deposto, evidentemente falsa, foi parar nas mãos das autoridades. Quem lembra da ditadura no brasil não esquece que os golpistas são trapalhões.  Gente  ridicula travestida na imponência da ordem e da razão. Raramente trabalham com seriedade. Mesmo porque dar um golpe não é coisa de gente séria. Da mesma maneira ocorreu em Honduras. A direita meteu os pés pelas mãos no fragor de agarrar com todas as forças a pífia oportunidade de retirar Zelaya no seu posto de direito. Nem mesmo o embasamento legal apresentado pelo MP ao Poder Judiciário hondurenho continha a denúncia de violação do art. 239. Esta alegação se deu depois do fato consumado. Uma tristeza absoluta.

       Fugindo da síndrome de ciclope (que só sabe enxergar um ponto de vista, veja artigo anterior), cabe analisar as ações do senhor Zelaya também. Quem é este senhor? O sujeito surge caindo nos braços do povo com um discurso , ao que me parece, tipicamente chavista. Como anteriormente dito e redito, a democracia é impessoalidade. Será mesmo que este senhor quer preservar a impessoalidade da instituição democrática que é a chefia do poder executivo? Não me parece que seja esse o objetivo de Zelaya. Não me parece, ao vê-lo esparramado no sofá da embaixada brasileira, que seja um caso de seriedade típica de um presidente que sabe o que está fazendo. Não imagino Lula em tão pretenciosa posição. O caso dá a impressão de mais um arroubo assistencialista, populista, típico da falta de seriedade que acometeu certos países da américa latina. Troca-se a direita suja por uma esquerda burra. Qual a consequência do culto à personalidade? A concentração de poder. E qual a consequência da concentração do poder? Arbitrariedade. Tão claro quanto a luz do sol é perceber que no caso desta política chavista concede-se mais bens de vida para o povo em troca de uma inflação de poderio do poder executivo. A tripartição dos poderes derretem e a população fica a mercê da boa vontade política. E nada pior do que  depender da boa vontade dos outros. A conclusão é simples: se não houver boa vontade, o povo entra pelo cano. E é ingênuo quem acha que todas as pessoas que se agreguem a uma máquina estatal em tais condições vão conservar, ad perpetum, boas intenções. Óbvio que não se pode culpar o povo faminto por gostar de tais mudanças. No entanto, sabe-se que isto não é muito inteligente. Mudança sim, mas da forma correta. Um presidente que tenha intenções de se perpetuar não é representante democrático. É lamentável, mas pragmaticamente só se pode lamentar que algo assim ocorra em Honduras. O que não dá para engulir são intelectuais brasileiros louvando o chavismo ou o golpismo de direita cegamente.  Ignorando a complexidade dos fatos. Troca-se uma ditadura por outra. O povo permanece bestificado, porém saciado. Se no entanto, Zelaya não apresentar esta queda pelo chavismo na continuidade, eu retiro o que eu disse em relação a ele (não ao chavismo) e me resigno.

        Um digressão: Zelaya tem todo o direito de ajudar o seu povo. Tem todo o direito de continuar no poder (de onde não deveria ter saído). Proponho para reflexão a seguinte questão. Qual a diferença de reformar uma cláusula da constituição e reformar ela inteira? No final das contas, teremos uma relativização do princípio democrático da rotatividade presidencial. Um povo, como Zelaya mesmo diz, tem todo o direito de se auto-governar. Mas até que ponto vai este direito? Se manter a rotatividade é vital para uma democracia e o povo quer que isto seja extinto, qual a legitimidade racional de tal conduta?  Talvez pudesse haver um alargamento do tempo do mandato, quem sabe a instituição de apenas uma reeleição. Mesmo assim, fica-se em grave impasse pois, se de um lado conserva-se o direito do povo efetivar sua auto-soberania através do fazimento de nova carta magna, do outro pode ser que as aspirações populares, movidas por paixões momentâneas, simplesmente levem a instituir normas que mais tarde resultem na degola de seu próprio direito de influir nos rumos da nação. Isto apontas para um dos impasses da auto-soberania popular ainda sem repostas definitivas.

       Voltando ao assunto. Na minha opinião, nem a direita golpista hondurenha e nem Zelaya se salvam. Ambos padecem de defeitos gravíssimos. A primeira é suja e o segundo é burro. O segundo é apenas menos pior. Nada mais. Menos pior porque vai assistir a população diretamente em relação aos gêneros básicos para uma vida digna. Mas ainda assim ruim porque mantém este povo no cabresto, a mercê da boa vontade política. Talvez seja um Zelaya, tal como ele se concebe hoje, necessário para uma população famélica, mas como algo emergencial. Jamais deve ser considerado como a saída definitiva, como a dádiva dos céus. E isto deve ser considerado pelos intelectuais.

      E a mídia???       


      Mas a mídia.... ó a mídia! De Globo a PHA, não há espaço para complexões. Há espaço só para a síndrome de ciclope. A globo e comparsas porque interessa detonar o presidente Lula. São hours concours. Não há motivo de esperar idoneidade da mídia direitista brasileira. Já de PHA espera-se um pouco mais. É certo denunciar o risível Jornal Nacional porque noticia o governo golpista de Honduras como "interino". Mas é frustrante não ver aquele acréscimo tão necessário para a formação de consciência de uma população que, parte por culpa dela e parte não, continua "impávida" frente aos acontecimentos do dia a dia.

sábado, 3 de outubro de 2009

O Ciclope ataca!

       James joyce chamaria de Ciclope. Em sua interminável epopéia (e isso não é demérito) Ulisses, aquele que é realcionado com a figura mitológica é o sujeito que importuna Leopold Bloom, simbolizando a arrogância e, principalmente, a incapacidade de aceitar opiniões diferentes, de ver as coisas sob diferentes prismas. Os Ciclopes de hoje são a mídia. Todas.


       A midia elitista porque defende o patriarcado ruralista e empresarial além do patriciado político historicamente identificado com fisiologismo, clientelismo, corrupção e desprezo pelo povo. A midia de esquerda (não toda ela)  porque boia em um espécie de êxtase, ao defender o governo Lula e suas ramificações como se fossem a personanificação do corpo de santos católicos encarnados de uma só vez em plena terra brasileira.


       Paulo Henrique Amorim (PHA), ao que parece o capitão dessa mídia eletrônica de esquerda, é um perfeito exemplo. Sim, o Enem foi fraudado. A gráfica pertence ao grupo Folha. Os meliantes que tentaram vender a informação o fizeram de forma muito esquisita. Pode ser uma tentativa de sabotagem da direita? Claro. A direita se identifica com a falta de decência. Mas também pode haver alguém simplesmente corrompido pelo dinheiro que tenha feito isto? Mas é claro também. Pode ser alguém ligado a administração pública? Esta mesma administração pública pela qual, segundo PHA, parece haver um virus de probidade moral que se espraia de modo alucinante por todos os tentáculos da estrutura estatal. Também pode ser. PHA em conferência diz que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) descobriu que o Sarney é o Sarney. Descobriu por interesses próprios (derrubar o Lula). Mas e o governo Lula, não sabe quem é o Sarney? PHA desce a lenha em tudo que não tem cheiro de partido da situação. Sarney não tem cheiro de situação. Sarney é o cara das concessões da Globo (ponta de lança dos endemoniados). Sarney é o senhor feudal, anacrônico. O governo atuar em benefício da vida política de tão deletério cidadão é simplesmente ignorado pela mídia de esquerda PHA. Os comentários postados tanto no blog de PHA quanto no Observatório da Notícia (OI) indicam que se é pra manter a estabilidade do governo Lula, vale até apertar a mão do diabo. Sarney, logo, passou batido através da benção dos amorinistas. Vou chamar de amorinistas não em desconsideração dos outros jornalistas que seguem a mesma linha, mas por questão de prática mesmo e de preferência: sim, discordo de PHA em certas questões mas o admiro em relação à outras. É este tipo de aliança que compõe a política de concessão/contensão que considero o buraco negro que pode arrastar o Brasil para a mediocridade novamente.
      
       O governo Lula, junto com as conquistas históricas, empreendeu uma política de convivência pacífica com a Corja. A Corja é formada por políticos como Sarney. O fato, como em post anterior já disse, é que Lula passa e a Corja permanece. A Corja não tem nome próprio, não tem rosto. Ela se esgueira pelos cantos, presente em todos os lugares. Associar-se a ela é apertar a mão do diabo mesmo porque a Corja é a legião à qual Lúcifer se referia. Os contra-argumentos existem: o governo faz o que pode, é necessário para dar movimento às mudanças. Repito: o governo Lula passa e a Corja fica. A Corja melhor se assenta no PMDB. Este partido não tem cara, não tem personalidade. É uma massa amorfa. E os perigos se escondem melhor onde não se sabe quem combater. A Corja mostra a cara no PSDB e no DEM.


       O governo institui a política de coexistência. E esta coexistência é simplesmente ignorada pelos amorinistas. PHA chega a falar em conferências sobre a coexistência em relação a mídia, mas jamais em seu blog sobre o campo político. Repito: isto aqui é uma democracia, fazer a população se auto-governar é mais importante do que malhar a Globo.


       As utopias existem para serem perseguidas. O preço a se pagar depois pode ser caro demais. Tudo o que PHA diz deve ser dito. Mas não contemplar realmente o câncer, a zona do agrião da política brasileira é realmente perder a oportunidade de subir de patamar na luta contra o elitismo e pressão classicista.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio 2016!

       Hoje o nosso presidente chorou. Hoje o Brasil, tal qual o presidente disse, passou as barreiras de uma espécie de maioridade desenvolvimentista. Foi uma das maiores vitórias geopolíticas do Brasil. Foi talvez a maior vitória do Brasil em uma competição de política e economia internacional não-violenta. E ainda por cima, contra adversários indiscutivelmente poderosos. O Brasil venceu a nata. O Brasil deu o primeiro passo para provar a todos que pode.

       Certamente, o desabafo do presidente Lula fala por si próprio. Não há o que acrescentar às palavras dele diante das câmeras. A efusividade foi proporcional à vitória. Confesso que a princípio a possibilidade de ser sede dos Jogos não me comovia. Sou do tipo radical. Radical porque não me agrada a idéia de investir em jogos caros, estruturas complexas e logísticas avançadas ao mesmo tempo que as pessoas morrem de fome. É difícil se animar com os Jogos não tendo teto, não tendo comida, nem cidadania. No entanto também reconheço que esta postura radical perpassa pelo idealismo. E como é o normal dos idealismos, são impossíveis de alçancar em questão de décadas e talvez acabem não sendo viáveis empiracamente no final das contas. Mas como ensinava Platão, não nos anima de saber que lutamos por eles? Este é o sentido...

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       A verdade é que o Brasil cresce como nunca. Talvez a escolha do Rio para sede dos Jogos seja a vitória governista que sepulte a oposição em relação a política nacional . A concorrência pela presidência fica muito mais difícil tendo em vista que o opositor, provavelmente o Serra, tenha contra si um candidato amplamente apoiado, com um governo vencedor nos campos da economia e da assistência social, que apresenta sucessivas taxas de crescimento, que controla a inflação e diminui o desemprego. O Serra com seus arroubos de autoritarismo junto com a turma elitista de mentalidade tacanha parecem não ser páreos para a candidata de Lula. Podia até não ser a Dilma!

       O Brasil venceu, não tenha dúvida.  Como eu havia dito, a candidatura do Rio não me comovia, mas também não me levou a torcer contra.  Todavia, confesso que ver o nosso presidente se mostrando humano foi um alento para o espírito. Ao contrário dos comentários sebosos, distantes, falsamente surpresos e programados da mídia televisiva, aquele choro é uma coisa simplesmente bonita. É de uma humanidade grandiosa. É uma insígnia de vencedor. Parece que por um breve momento, o colosso burocrático adquire uma feição humana, que chora, sofre e vibra no final da provação. Por um breve momento, o Estado se humaniza, se identifica com o povo. Claro que é característica do Lula fazer discursos viscerais mas aquele choro de criança é evento único.

       Apesar das ressalvas, terminei por me alegrar pela vitória do Rio.

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       O presidente, nas entrevistas, afirmou ter provado que o Brasil consegue. Disse que não é porque temos pobreza que não conseguiriamos nos susperar. Lula falou contra aqueles que acham que defeitos sociais são a razão para não termos Jogos Olímpicos. Trata-se de uma questão de direcionamento de recursos: segundo eles, há coisas mais importantes do que jogos suntuosos. Não vejo razões de discordar do Presidente Lula com relação a esse tipo de crítica, mas também reconheço a razoabilidade da crítica criticada. No entanto, gostaria de apresentar uma outra visão crítica da condução política brasileira aproveitando a conexão com os Jogos Olímpicos. Lula falou sobre o Brasil superar sua sina de subalterno, de incapaz de ascender. Desenvolverei meu raciocínio sob este prisma.
       
       Acredito na capacidade deste país. Estas pessoas, tão sofridas e achincalhadas por séculos, podem muito mais do que os elitistas permitem que elas mostrem. Portanto, acredito também que quem pense que falta ao brasileiro capacidade sofre de severa estupidez e/ou má-fé. E é contra estes seres de consciência limitada que considero de fundamental importância criar mecanismos para que a população se defenda. Explico melhor: o governo Lula é indiscutivelmente vencedor. Todavia as políticas de promoção de bem-estar são instituidas unilateralmente pelo governo. A população, após o voto na eleição, permanece numa inércia absoluta assistindo à bonança de forma bestificada, como se fosse uma dádiva enviada diretamente do céu (e é de certa maneira). Não se criou um costume de pressão por medidas. Se um sistema de tomada de decisões é fomentado e começa a dar resultados, é dado um passo enorme rumo ao auto-governo da população. Se trata de efetivar uma soberania que anda caduca e de reavivar uma democracia que mais parece aristocracia.

       O presidente Lula é muito melhor que seus colegas trapalhões da América Latina. Nem Chaves, nem Morales, nem Zelaya. Lula é muito mais lúcido, mais pragmático e com um senso de democracia mais sólido do que estas lamentáveis figuras. Com Lula não há chances de perpetuação no poder. Ele sabe o real sentido da vivência democrática. Por isso mesmo é importante lembrar que na democracia não há lugar para cultos à personalidade. Não há um salvador perpétuo. As instituições democráticas são mais importantes que o líder e este precisa salvaguardá-las. Com isto quero dizer que o Lula não é eterno. As conquistas de seu governo são frutos de unilateralidade, ou seja, de boa vontade. Não se originam de pressão genuína de uma sociedade organizada (o único ato, friso, é o voto uma vez a cada 2 anos). Claro que é difícil vislumbrar qualquer governo, por mais elitista que seja, que consiga se eleger abolindo o bolsa família, mas é por demais evidente que muito ainda se tem de fazer para expurgar a corrupção e o elitismo da nossa nação. E é neste ponto precisamente que reside a importância de instituir sob pena de se perder as conquistas lulistas com o passar do tempo. O Lula sabe, a democracia é a impessoalidade governamental sendimentada sobre uma comunidade atuante. Sem ação, há reificação do ser humano em prol de poucas cabeças destacadas da grande sociabilidade. A impressão que me deixa é que estamos perdendo a oportunidade de empreender este projeto. Como diz o jornalista Mino Carta, não teremos tão cedo um ex-metalúrgico na presidência com quem a população se identifica automaticamente. 

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      A vitória do governo Lula é evidente diante da tristeza que foi a vida administrativa pública do Brasil em 500 anos. No entanto é visível que as concessões, sempre tomadas a revelia do povo, preservaram o abjeto sistema de contensões elitistas que se perpetua desde sempre. Pretendo escrever sobre outros elementos do esquema contenção-concessão na continuidade. Hoje, queria mesmo é usar este memorável dia para saudar e também advertir.

       O governo Lula é de uma complexidade impossível de abarcar em um post de Blog. Espero ter me feito claro. Não se trata de demonizar o Rio como sede dos Jogos Olímpicos e sim lembrar de um hiato político-estrutural que pode fazer retroceder até a alegria de celebrar o maior evento esportivo do planeta. O meu único objetivo é apontar esta complexidade, esta duplicidade que transita entre o monumental e o reacionário. 

       Hoje, contudo, foi o dia do monumental. Emocionemo-nos com Lula,  o presidente humano. Ele merece. O Brasil merece.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Infelizmente

Prólogo situador: A OSESP tinha tour agendada nos EUA inclusive para tocar no Carnegie Hall. Foi-se o Neschling, foi-se o Carnegie Hall também. Agora a orquestra excursionará por cidades inexpressivas, com um maestro de cujo único e fatal defeito é não ter NENHUMA  relação com a orquestra (logo, não é culpa dele).


       Há os que discordam, os que acham que é melhor como tá, que a substituição do Neschling foi boa, que o maestro era abusado, que os músicos não gostavam dele, que encaram qualquer crítica à administração da orquestra (demissão do Neschling, substituição de obras desafiadoras, de obras brasileiras, etc) como desejo que a orquestra se estrague só porque ela não seguiu os rumos que queremos, enfim... uma série de argumentos. Uns mais razoáveis, outros indubitavelmente tortos...


       O fato é que a nossa orquestra iria tocar no Carnegie Hall e hoje vai tocar em cidades inexpressivas regida por um maestro que caiu de para quedas no pódio. Não há afinidade, não há identificação com a construção hercúlea dessa orquestra brasileira.


       Provavelmente, a orquestra vai tocar muito bem. Assim como vem tocando com ou sem Tortelier. E aqueles que acusam os críticos da administração atual e do pessoal que derrubou o Neschling vão cantar vitória. Pois o bom desempenho da orquestra , para eles, é a prova de que a operação lamentável de aborto da Osesp, a demissão do Neschling e a intervenção trágica do governo ( para eles tudo é um avanço, e o que é esquisito demais para se defender em público eles ignoram) foram um sucesso.


       Acredito, ao contrário destas pessoas, que a orquestra é boa demais para ser derrubada por ingerências políticas e visões artísticas pífias. E é por isso que ela não vai cair. É apesar destas modificações, e não por causa delas, que ela vai continuar de pé. As raízes plantadas , pelo jeito, são das melhores..


       É com esse pouco de esperança que espero que os loucos sejam varridos das administrações e as pessoas de coragem sejam trazidas de volta para o lugar de onde nunca deveriam ter saído.


       E olha que eu nem de São Paulo sou hein...