sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Minha experiência com o lulismo

Aos meus exíguos leitures, reafirmo o meu extremo interesse por política. Principalmente porque gosto da definição do jurista Dalmo Dallari que apresenta a política como sendo uma função do Estado que tem como escopo unir os grupos sociais em torno de um objetivo comum. E qual é o nosso objetivo? Eu tenho uma grande necessidade de organizar meus pensamentos. Penso eu que este é um ponto crucial para se entender a realidade escorchadora que nos cerca. A sistematização de dados empíricos, de experiências interiores, psicológicas, de caráter social, o modo como processar empatias, tudo isso pode ser alvo de obessão para mim. Pode ter um caráter inútil, claro. Mas acho que guardando as devidas proporções, tomando cuidado para não me tornar, em vez de comandante, comandado das minha necessidades, bons resultador podem fluir. Contra tudo isso, a única noção de sistematição que vou abandonar é a dos postagens blog, porque senão acho que só vou escrever aqui de semestre em semestre.


Qual o assunto de hoje? É o Lula. Será quase que como um diário. Um ato de mea culpa, quiçá. Gostaria de contar para meus exíguos leitores um pouco da minha experiencia. Eu era pequeno quando o Lula se elegeu. Só sei dizer que a cena da posse, a carreata, tudo aquilo me marcou de sobramaneira. Era o clima de esperança depois de tanto tempo sendo pisado por uma elite egoísta. Depois vieram os programas sociais, os escandalos em escala nacional. O que eu posso dizer é que, a medida que o tempo passava, eu via o governo Lula com mais desconfiança. Principalmente porque havia algo ali que não me agradava. Isso acontece comigo. Tem coisas que eu reputo como suspeitas, sem saber exatamente o que de podre há no interiror delas. O gover Lula era um desses casos. O fato deste governo constituir para mim uma massa amorfa, de cujos elementos eram por demais opacos, de delimitações ideológicas e fáticas muito pouco seguras, impediam-me de gostar dele. Veja bem: me impedir de gostar do governo não significa me atrelar a oposição. Desse modo alguns fatores pesaram neste aversão: o caráter perniciosamente hiper-ufanista do governo, para o qual só há luzes para as boas ações, e também de seus simpatizantes: mídia, figuras públicas, militantes e pessoas comuns.


O ufanismo desmedido é um problema sério. Leva-nos aos perigos do auto-engano, das surpresas desagradáveis pós-brisa do mar. Ao ver o governo isento de auto crítica e seus simpatizantes todos tomados pela mania ciclópica de só enxergar o que querem ver, foi inevitável que a antipatia me batesse na consciência.  Havia muita coisa errada, pobreza, falta de participação política, uma corrupção que não cede, enfim, insuficiências para aderir aos simpatizantes para os quais era Deus no céu e Lula na terra. Infelizmente , isto me impediu de apoiar um governo que deveria ser apoiado. Por que? Porque a minha incapacidade de distinguir o que de bom e ruim havia na massa amorfa mais a antipatia pelos seguidores ciclópicos me impeliram a isto. Apesar de um pouco de lerdeza da minha parte, com o tempo eu consegui sistematizar os principais pontos da atual administração. A partir do momento que consegui destrinchar o que me incomodava nela, senti-me muito melhor para apoiá-la. Não se tratava de, pela antipatia atual, retomar o status quo político de penúria intelectual e de egoísmos a pleno vapor. Trava-se de que a situação não estava perfeita do jeito que alguns pareciam pintar. Havia algo de não compatível ali com a história do Lula e do PT por de baixo dos panos. E não identificar isto era jogar no lixo a chance que a eleição do Lula estava nos dando. Isto é que me afastava. Não se tratava de execrar o governo, mas de tomá-lo como uma coisa esquisita, uma espécie de engodo travestido de boas intenções, no qual a essência estava maculada irremediavelmente por algum elemento obscuro que eu não conseguia identificar. O comportamento ciclópico deixava uma imagem causadora de tremendo mal estar. Como era possível que tivesse honestidade neste governo? Sem identificar os problemas, o mal estar provocado pelo ciclopismo se estendia aos outros feitos do governo, impedindo a aprecisação das coisas boas e funcionando como um  catalizador em relação às ruins.  Além de ser a identificação  e entendimento efetivo do próprio ciclopismo um desafio também. O governo passado era terrível, o atual uma contradição.


Pois muito bem, a partir disso eu afirmo com segurança agora: este é o nosso melhor governo. Nos moldos do bordão "nunca antes na história desse país". E é um fato. O brasil vive um boom econômico. Lula fala ao Financial Times. The economist oferece capa com o cristo redentor decolando. Título? "Brazil takes off". Maravilhoso. Temos um presidente democrático, ao contrários dos colegas trapalhões de trópico, tão pequenos, tão ridículas figuras. Tempos , sobretudo, a possibilidade de injetar no centro político brasileiro, tão fustigado pelas mais diversas pragas éticas, um pouco de justiça, de humanidade, de retidão moral. Se eu acho que estamos perdendo, por enquanto, esta chance? Sim, acho. O governo lula, digo com convicção, é um governo vencedor. Se Villa é a montanha e o resto são os vales, o governo lula é a nossa montanha. É o nosso pão de açucar do qual o Cristo decola para ganhar o mundo. Não há dúvidas sobre isso. O desemprego diminuir (250 mil empregos segundo dados deste mes), a renda sobe, a pobreza diminuir, a classe média cresce. É formidável. Mas qual o custo? A política de coexistência. Repito: só consegui apoiar este governo quando consegui dar nomes aos seus erros. Pois os acertos são auto explicativos. Eu me sentia impedido de qualquer apreciação sem entender o que havia de errado ali. Não seria honesto para comigo mesmo. Eu não conseguia vestir a camisa sem sistematizar as contradições daquele governo. Eu precisava melhorar o meu próprio entendimento, campo psicológico, pra me sentir a vontade. Com esta organização, você se protege de dar nomes errados para os fatos, de estender a causa de um episódio para o outro, de gestar concepções como as que, na complexidade estrutural do Estado,  permitem contaminações em termos de causa e consequência entre elementos que não guardam relação necessária ou deletéria.


Então o ufanista excessivo poderia perguntar: ah, então vc agora vê como o governo é tão bom quanto nós propalamos? Nada disso. Ele é maravilhoso, mas na medida que acerta formidavelmente também erra miseravelmente. Aí é que está o cerne do meu desconforto e antipatia em relação ao governo Lula: até então eu não havia encontrado uma corrente de pensamento, dentro ou fora do governo, que malhasse de maneira enfática os defeitos da mesma forma que enaltecia as vitórias. Assim eu pensava: "estas pessoas que agem dessa forma só vendo o que querem ver, ignorando o que convém não podem plasmar uma concepção política totalmente boa". Vejo que hoje isto pode estar mudando, a começar pelos comentários dos internautas no blog do PHA por exemplo. Vejo um tipo de pensamento mais saudável na revista Carta Capital, que tardiamente descobri, para meu alento. E quando falo de erro, de que se trata especificamente? Trata-se da coexistência com uma classe política corrupta em nome da governabilidade. Sabe? Não é confronto, não é política de expurgo, não se trata de trazer a vassourinha do Jânio efetivamente (melhor do que vassoura seria um trator). É coexistência. É cada um na sua, sabe? É como se o governo dissesse: "deixa eu aprovar as minhas reformas, minhas políicas sociais que eu deixo você continuar corrompendo o Estado e minando a sociedade". É por demais absurdo para deixar para lá, para ignorar, para dedicar apenas algumas palavras para o assunto. Estamos perdendo a nossa chance!


Além da coexistência, tem algo que o Leonardo Avritzer identifica muito bem no livro A Moralidade da Democracia, que é o fato dos governos pseudo-democráticos (aquelas em que só há democracia formal, mas o autoritarismo impera nas entranhas do sistema político) usarem a modernidade pra compensar a falta de democracia. Pois eu vejo isso no nosso governo. Vejo que o crescimento econômico leva todo mundo na onda do ufanismo, inclusive a mídia crítica ( que era pra ser, ao menos) sem perceber que o cidadão que tem o seu prefeito corrupto ainda não tem o que fazer. O país cresce? Evidente que sim, mas a democracia continua mambembe. A sociedade continua sem possibilida de auto-determinação. Continuamos refens do poder político, dos contatos privilegiados, da falta de poder de reação. Em troca disto tudo, nos maravilhamos com o possível trem-bala rio-são paulo ou as nossas olímpiadas tão sonhadas. Não sou contra a Copa ou as Olímpiadas, acho maravilhoso, como também não sou contra a Osesp e o salário do maestro (ex) de 125 mil reais mensais. Como diz o Lula, não é porque temos problemas que não podemos realizar coisas grandes. Lula tem toda a razão, mas também não podemos ignorar  o que se passa de errado. Pior, substituir democracia por modernidade lega ao povo a ignorância do conformismo. E há algo pior do que isso? Falta esperança quando a pessoa diz "rouba mas faz". Há algo mais triste do que isso? Isso é fim de carreira, é jogar a toalha.


Falha o governo também na auto crítica. Neste ponto, falha a mídia simpatizante igualmente. Agora, prefiro fazer uma digressão. Em termos de mídia simpatizante, nada melhor que Paulo Henrique Amorim. O seu blog é um assombro. Apesar de achar, tal qual a crítica que eles fazem da elite paulista (separatista, centrada no prŕoprio umbigo), que o blog peca pela sãopaulocentrismo. Mas, em todo o caso, PHA faz um trabalho extremamente salutar. As críticas que eu dirigi a ele neste blog não se de maneira nenhuma com o intuito de apagar sua importância.Essas críticas são as mesmas sobre o ufanismo exacerbado. Finita a digressão, digo que PHA falha nesse aspecto. E o defeito é de forma e não de conteúdo. Explico melhor: quando o Brasil cresce, exemplo de manchete em letras garrafais é "Brasil é um sucesso". Isto compreende o governo. Apesar de não implícito, fica na cara que o elogio é ao governo brasileiro. Mas quando se trata de denunciar a perseguição lamentável que o atual diretor da PF juntamente com a conivência do Ministro da Justiça faz,  a denúncia é feita com extrema competência, mas sem aquele caráter global que envolve toda a administração. Ora, porque o êxito é globalizado e a vergonha é localizada? Ainda mais no caso em que são perseguidos o delegado Protógenes, o juiz De Sanctis por terem ousado prender o todo poderoso Daniel Dantas. Além disso, o perseguidor é o diretor da PF senhor Correia, acusado de torturar empregada doméstica. Um lixo. Mas quem escolhe o diretor? O ministro-maravilha Tarso Genro. E o ministro-maravilha é componente do ministério do governo federal. São os cargos de confiança mais importantes do Estado de cuja escolha é confiada ao Presidente. Porque não globalizar neste caso? Afinal, temos um governo de Lula no qual, após um periodo de fantástica operações da PF para capturar meliantes do colarinho branco, a PF misteriosamente é posta sob novas diretrizes, nas quais ninguém é preso, os justos são perseguidos e o ministro da justiça assiste sentado. Novamente, perdemos a batalha pra corrupção. Tem pão na casa da dona Maria, mas tem corrupção limpa (isso é possível?) e incólume na casa do seu Dantas! Temos a petrobrás (a modernidade) e temos Sarney no senado! Temos até Collor cantando Lula-lá! É uma festa.


No momento estes são os fatores chaves que eu identifico como problemáticos no governo: a coexistência ao invés do enfrentamento (não precisa ser aberto, não precisa ser burro, mas paulatino, lento, porém eficaz), a substituição do potencial democrático pela modernização e o ufanismo excessivo atrelado ao ciclopismo  (basicamente a arte de ver seletivamente e ignorar aberrações gritantes) que  faz ausente elementos tão necessários para que o Brasil não seja o país do futuro simplesmente, mas o NOSSO país do futuro, país em nossas mãos, e não nas mãos de banqueiros corruptos e políticos egoístas.

Claro que, para toda essa saga que eu descrevi, teve de haver um amadurecimento pessoal da minha parte, não bastando apenas constatações empíricas. Compreender um pouco mais do jogo político, mudar certas concepções, a fim de entender mais e buscar soluções mais realistas e coerentes para a sociedade. Posso esclarecer hoje finalmente ( e me ufanar, com comedimento) que meu posicionamento político é de apoio ao governo Lula, pois só através dele ( ou de sua provável sucessora) teremos chance de mudar as coisas na ordem do dia. O governo continua ciclópico mas hoje a diferença talvez seja que, de uma aversão desencantada, eu tenho passado a entendê-lo como uma possibilidade em progresso: por mais falha que seja, ainda há uma esperança de dias melhores, ao contrário do que há em administrações egocêntricas. Ao invés do ciclopismo ser um fator fatalista, sobrevejo no governo um elemento anterior a ele que me dá esperanças. Talvez seja uma luz de retidão moral e idealismo honesto por detrás do próprio comportamento caolho.  Este então seria um elemento que nubla a feição elementar do governo Lula e contra o qual toda a força deve ser usada. Fica-se a impressão, no entanto, mais forte ainda de que o governo inteiro depende de uma pessoa só, o que não é bom.

Pra terminar, por que dar o nome certo às coisas me ajudou? Porque  só identificando os atos é possível proceder em uma compreensão que não gere imputações por extensão e numa tentativa de ver além do que nos é mostrado.  Assim eu tenho também condições de lutar honestamente e sem extremismos pelas conquistas salutares das mais espetaculares deste governo. Além do mais, a figura do Lula me emociona e me inspira confiança. Talvez no dia em que isso se perder, minha fé neste governo se dissipe também.

Esse relato foi mesmo mais uma vontade de dividir com meus exíguos leitores uma experiência de evolução de uma crítica individual sobre o nosso governo. Ele pode ter incongruências já que o fato de eu escrever sobre algo que se deu na minha cabeça durante um intervalo considerável de tempo serve também para eu depurar minhas memórias e conceitos além de explicitar para mim mesmo o quanto eu sei de mim e da minha caminhada. Peço então, aos meus exíguos leitores, um amistoso exercício de compreensão em função disto.

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