terça-feira, 24 de novembro de 2009

Reinaldão!

Reinaldo Azevedo, colunista da Veja, foi entrevistado por Jo Soares ainda há pouco. Falou muitas verdades, fez algumas palhaçadas desnecessárias. Mas o que eu gostaria de salientar é que o ciclopismo (conceito que venho aprimorado faz um tempo como uma verdadeira arte de ver seletivamente, leia-se, ignorar o que é incomodo) não atua somente no governo. Azevedo com muita propriedade falou sobre a incapacidade do governo se dispor a ser criticado. E é verdade. Tal como eu já falava aos meus exiguissimos leitores, o ciclopismo esta imanentemente ao ufanismo excessivo. Pode se considerar o segundo uma decorrência natural do primeiro. Ora, quem se ufana demais, fa-o de em função de um endeusamento. De uma espécie de uso de vestimenta que expressa a infalibilidade. O governo Lula, em função do ciclopismo, não é propenso a ser criticado. Mino Carta, editor de revista que considero séria, quando critica demais já é acusados pelos ufanistas de "traição à esquerda nativa". Muito esquisito.

O problema real, acho eu, é que hoje em dia, quem critica (a Veja de Azevedo, por exemplo), critica não porque é cidadã, e sim porque tem interesses escusos. Critica inclusive em função de elementos escusos. O Globo adultera manchetes, fazendo-as claramente incompatíveis com o texto a que se referem, a Veja fala sobre o grampo, que foi um dos motivos deflagradores da perseguição contra Protógenes e cia, que simplesmente não aparece. Enfim, a tal da mídia que Azevedo toma como "fiscalizadora" não fiscaliza porque é sã, fiscaliza porque tem o dela pra tirar, tem um lucro posterior, uma ideologia a defender. É possível formar uma conjectura de que o Lula se porta de maneira tão agressiva contra a imprensa tucana porque é mais partidária que imprensa. De todo o modo, se este for o caso, não seria melhor o Lula repetir o ato de Obama nos states considerando a fox um partido político (dado o caráter eminentemente parcial pró-republicanos do canal)? Seria mais inteligente e mais honesto.

É importante lembrar que o ciclopismo não atinge apenas o governo Lula. Atinge também a mídia de direita. Ou vemos a Globo ou a Veja atacar Serra pela queda do Rodoanel no qual faltava  a viga de sustentação principal (!!!) ? A competência para decidir o caso Battisti é do Presidente da República e vemos algum orgão a criticar o canastrão Gilmar Mendes? Dilma melhorou do cancer e houve alguma capa da Veja relatando o feito? O próprio Mendes prolata dois habeas corpus em favor de criminoso notório e cada as críticas? Ou , caro leitor, quer me dizer que crítica são as falas graves do terrível William Bonner ( que chama o espectador do JN de Homer dos Simpsons, ou seja, barrigudo, burro, preguiçoso e pinguço) ou a ridícula Sandra Annemberg a noticiar coisas ruins com aquele arzinho de revolta para logo em seguida tascar uma receita de torta com nozes?

Em resumo, a mídia de direita, que é partidária e imoral, é ciclópica. O governo Lula, com imensos acertos, mas com falhas catastróficas também é ciclópico. Ninguém se salva neste quesito, não há santos.

Em tempo, gostei de uma expressão que Azevedo disse no programa que foi o "coitadismo". Nisso eu também concordo porque é um fenômeno que venho observando no Brasil que consiste no seguinte: bom é o pobre, ruim é o remediado e quem vem daí pra cima. Em outras palavras, ocorre neste país um imenso orgulho de passar dificuldade, porque, de certa forma, isso acabou virando sinônimo de caráter, de fibra moral. No entanto, se você já teve sorte de nascer de modo a não passar dificuldades (e nem precisa ser o rico, falo de classe média), você não tem direito de reclamar. É como se, já que o governo Lula prioriza os pobres (com razão), houvesse a desforra destes, que após anos de opressão renascem das cinzas revigorados e , usando o discurso das dificuldades da pobreza, envergonham aqueles que não passaram por dificuldades na vida. Parece que há uma certa vergonha de não ser pobre. De certa forma, aqueles que vivem bem e gozam das beneces matérias, constituem, nesta visão, a classe dos opressores que pisaram nos pobres durante todo esse tempo. E isso não é verdade. É um fenômeno ao meu ver natural diante das circunstâncias. Mas não pode ser fomentado por quem tem o poder (mídia, governo).  Não é porque eu tenho um carro e um laptop que farei parte da turma que oprimi a população carente, que mantém o povo na ignorância. Ainda mais, porque boa parte dos remediados economicamente trabalha duro para ter tudo o que tem e, além disso, há o elemento (muito importante) da sorte. Se você nasce bem, porque se envergonhar disso? Tem que se envergonhar é de nascer bem e ser um insensível social. Não atento à conjultura, não ajudar quem pode, votar mal, esperar as coisas cairem do céu, não tentar melhorar as coisas. (Isso é complexo). Porque, no fundo, o que todo mundo quer é passar para a linha dos remediados.

That`s all , folks!

sábado, 21 de novembro de 2009

O caso Geisy

Cá entre nós, exíguos colegas. Essa mina é muito feia. Baranga mesmo do estilo que se acha. Como afirmei a um amigo meu: se ela me dissesse que armou toda essa confusão de propósito eu acreditava. Sim, porque agora até a Playboy tá interessada na ditacuja (tristeza hein? Fim de carreira pra revista).

Eu acho é que ela deu uma provocadinha básica. O que não justifica a ação selvagem das centenas de estudantes. Uma expulsão por parte da faculdade? Difícil analisar de tão longe.

Não quero entrar no mérito se a ditacuja faltou ou não com os tão famosos bons costumes. Queria mesmo é salientar o comportamento selvagem da turba.  Não guardo esperanças quanto as pessoas. A maioria das pessoas tem preguiça de pensar, de combater as próprias doenças morais que corroem qualquer tipo de razoabilidade. No caso desta mina, parece-me que novamente a turba agiu com o estômago. Porque ela tem a imagem da mulher que se "pega" e com a qual não se casa. Esta imagem , extramemente pejorativa, é fruto invariavelmente do machismo na sociedade. Uma mulher dessa não inspira respeito. Os homens pegam e usam, depois jogam fora. Tem orgulho de contabilizar tal mulher, mas jamais de considerar tal mulher como algo mais que uma pedaço de carne. Não respeitam mulher desse tipo.

Eu acho que o ser humano tem uma tendência natural ao bizarro, à ignorância, à preguiça, ao prazer e à bestialidade. A violência, as aspirações de grandeza e principalmente o exercício do poder produzem fascínio no ser humano. Constitui, acho eu, uma árdua tarefa de cada um, lutar para controlar esta natureza errática. E é difícil. Ainda mais em uma sociedade tão doente e mediocre. O problema não é tentar e não conseguir. O problema é que a maioria das pessoas nem sequer tentam. As pessoas não estão interessadas em controlar o calor das próprias entranhas. Não tenho explicações para tal natureza, só sei dizer que é assim. E no caso Geisy, parece-me que botaram o intestino para fora. Já que na moral vigente ela é um pedaço de picanha pendurada no gancho, protegidos pelo sentimento de grupo (catalizador da coragem para o bem e para o mal), a turba ensadecida alimentou o demonio dentro de si que clama por exercer poder sobre algo moralmente tão ridículo, uma moça depravada que só serve para alimentar prazeres insólitos na calada da noite e devaneios solitários entre quatro paredes. O poder foi exercido, na forma da execração, aquilo que boia escondido na profundeza do pensamento emerge, o preconceito e tudo mais, o desprezo seletivo (pois este só aparece nas manifestações heterofóbicas e não quando se trata de satisfazer a própria sanha).

Na nossa sociedade, tal qual Habermas preconizava, os direitos humanos vigoram de forma mais ou menos concreta. Há uma noção de respeito, de humanidade, uma verdadeira moral secular. Mas isto só no plano público. No plano psicológico, onde ninguem será punido pela hipocrisia de uma sociedade que prega os direitos humanos, acham um horror a menina branca que morre e não dão a mínima pro pobre (via de regra preto) que estrebucha na calçada, o demônio ( esse sim verdadeiro, não o religioso) corer solto.

É a vida. Como explicar o holocausto? Os genocídios? O ódio contra o (aparentemente) diferente? E a execração pública de Geisy? Tem tudo a mesma raíz, a mesma semente. A verdadeira "sementinha do mal" como diria o Cap. Nascimento.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Minha experiência com o lulismo

Aos meus exíguos leitures, reafirmo o meu extremo interesse por política. Principalmente porque gosto da definição do jurista Dalmo Dallari que apresenta a política como sendo uma função do Estado que tem como escopo unir os grupos sociais em torno de um objetivo comum. E qual é o nosso objetivo? Eu tenho uma grande necessidade de organizar meus pensamentos. Penso eu que este é um ponto crucial para se entender a realidade escorchadora que nos cerca. A sistematização de dados empíricos, de experiências interiores, psicológicas, de caráter social, o modo como processar empatias, tudo isso pode ser alvo de obessão para mim. Pode ter um caráter inútil, claro. Mas acho que guardando as devidas proporções, tomando cuidado para não me tornar, em vez de comandante, comandado das minha necessidades, bons resultador podem fluir. Contra tudo isso, a única noção de sistematição que vou abandonar é a dos postagens blog, porque senão acho que só vou escrever aqui de semestre em semestre.


Qual o assunto de hoje? É o Lula. Será quase que como um diário. Um ato de mea culpa, quiçá. Gostaria de contar para meus exíguos leitores um pouco da minha experiencia. Eu era pequeno quando o Lula se elegeu. Só sei dizer que a cena da posse, a carreata, tudo aquilo me marcou de sobramaneira. Era o clima de esperança depois de tanto tempo sendo pisado por uma elite egoísta. Depois vieram os programas sociais, os escandalos em escala nacional. O que eu posso dizer é que, a medida que o tempo passava, eu via o governo Lula com mais desconfiança. Principalmente porque havia algo ali que não me agradava. Isso acontece comigo. Tem coisas que eu reputo como suspeitas, sem saber exatamente o que de podre há no interiror delas. O gover Lula era um desses casos. O fato deste governo constituir para mim uma massa amorfa, de cujos elementos eram por demais opacos, de delimitações ideológicas e fáticas muito pouco seguras, impediam-me de gostar dele. Veja bem: me impedir de gostar do governo não significa me atrelar a oposição. Desse modo alguns fatores pesaram neste aversão: o caráter perniciosamente hiper-ufanista do governo, para o qual só há luzes para as boas ações, e também de seus simpatizantes: mídia, figuras públicas, militantes e pessoas comuns.


O ufanismo desmedido é um problema sério. Leva-nos aos perigos do auto-engano, das surpresas desagradáveis pós-brisa do mar. Ao ver o governo isento de auto crítica e seus simpatizantes todos tomados pela mania ciclópica de só enxergar o que querem ver, foi inevitável que a antipatia me batesse na consciência.  Havia muita coisa errada, pobreza, falta de participação política, uma corrupção que não cede, enfim, insuficiências para aderir aos simpatizantes para os quais era Deus no céu e Lula na terra. Infelizmente , isto me impediu de apoiar um governo que deveria ser apoiado. Por que? Porque a minha incapacidade de distinguir o que de bom e ruim havia na massa amorfa mais a antipatia pelos seguidores ciclópicos me impeliram a isto. Apesar de um pouco de lerdeza da minha parte, com o tempo eu consegui sistematizar os principais pontos da atual administração. A partir do momento que consegui destrinchar o que me incomodava nela, senti-me muito melhor para apoiá-la. Não se tratava de, pela antipatia atual, retomar o status quo político de penúria intelectual e de egoísmos a pleno vapor. Trava-se de que a situação não estava perfeita do jeito que alguns pareciam pintar. Havia algo de não compatível ali com a história do Lula e do PT por de baixo dos panos. E não identificar isto era jogar no lixo a chance que a eleição do Lula estava nos dando. Isto é que me afastava. Não se tratava de execrar o governo, mas de tomá-lo como uma coisa esquisita, uma espécie de engodo travestido de boas intenções, no qual a essência estava maculada irremediavelmente por algum elemento obscuro que eu não conseguia identificar. O comportamento ciclópico deixava uma imagem causadora de tremendo mal estar. Como era possível que tivesse honestidade neste governo? Sem identificar os problemas, o mal estar provocado pelo ciclopismo se estendia aos outros feitos do governo, impedindo a aprecisação das coisas boas e funcionando como um  catalizador em relação às ruins.  Além de ser a identificação  e entendimento efetivo do próprio ciclopismo um desafio também. O governo passado era terrível, o atual uma contradição.


Pois muito bem, a partir disso eu afirmo com segurança agora: este é o nosso melhor governo. Nos moldos do bordão "nunca antes na história desse país". E é um fato. O brasil vive um boom econômico. Lula fala ao Financial Times. The economist oferece capa com o cristo redentor decolando. Título? "Brazil takes off". Maravilhoso. Temos um presidente democrático, ao contrários dos colegas trapalhões de trópico, tão pequenos, tão ridículas figuras. Tempos , sobretudo, a possibilidade de injetar no centro político brasileiro, tão fustigado pelas mais diversas pragas éticas, um pouco de justiça, de humanidade, de retidão moral. Se eu acho que estamos perdendo, por enquanto, esta chance? Sim, acho. O governo lula, digo com convicção, é um governo vencedor. Se Villa é a montanha e o resto são os vales, o governo lula é a nossa montanha. É o nosso pão de açucar do qual o Cristo decola para ganhar o mundo. Não há dúvidas sobre isso. O desemprego diminuir (250 mil empregos segundo dados deste mes), a renda sobe, a pobreza diminuir, a classe média cresce. É formidável. Mas qual o custo? A política de coexistência. Repito: só consegui apoiar este governo quando consegui dar nomes aos seus erros. Pois os acertos são auto explicativos. Eu me sentia impedido de qualquer apreciação sem entender o que havia de errado ali. Não seria honesto para comigo mesmo. Eu não conseguia vestir a camisa sem sistematizar as contradições daquele governo. Eu precisava melhorar o meu próprio entendimento, campo psicológico, pra me sentir a vontade. Com esta organização, você se protege de dar nomes errados para os fatos, de estender a causa de um episódio para o outro, de gestar concepções como as que, na complexidade estrutural do Estado,  permitem contaminações em termos de causa e consequência entre elementos que não guardam relação necessária ou deletéria.


Então o ufanista excessivo poderia perguntar: ah, então vc agora vê como o governo é tão bom quanto nós propalamos? Nada disso. Ele é maravilhoso, mas na medida que acerta formidavelmente também erra miseravelmente. Aí é que está o cerne do meu desconforto e antipatia em relação ao governo Lula: até então eu não havia encontrado uma corrente de pensamento, dentro ou fora do governo, que malhasse de maneira enfática os defeitos da mesma forma que enaltecia as vitórias. Assim eu pensava: "estas pessoas que agem dessa forma só vendo o que querem ver, ignorando o que convém não podem plasmar uma concepção política totalmente boa". Vejo que hoje isto pode estar mudando, a começar pelos comentários dos internautas no blog do PHA por exemplo. Vejo um tipo de pensamento mais saudável na revista Carta Capital, que tardiamente descobri, para meu alento. E quando falo de erro, de que se trata especificamente? Trata-se da coexistência com uma classe política corrupta em nome da governabilidade. Sabe? Não é confronto, não é política de expurgo, não se trata de trazer a vassourinha do Jânio efetivamente (melhor do que vassoura seria um trator). É coexistência. É cada um na sua, sabe? É como se o governo dissesse: "deixa eu aprovar as minhas reformas, minhas políicas sociais que eu deixo você continuar corrompendo o Estado e minando a sociedade". É por demais absurdo para deixar para lá, para ignorar, para dedicar apenas algumas palavras para o assunto. Estamos perdendo a nossa chance!


Além da coexistência, tem algo que o Leonardo Avritzer identifica muito bem no livro A Moralidade da Democracia, que é o fato dos governos pseudo-democráticos (aquelas em que só há democracia formal, mas o autoritarismo impera nas entranhas do sistema político) usarem a modernidade pra compensar a falta de democracia. Pois eu vejo isso no nosso governo. Vejo que o crescimento econômico leva todo mundo na onda do ufanismo, inclusive a mídia crítica ( que era pra ser, ao menos) sem perceber que o cidadão que tem o seu prefeito corrupto ainda não tem o que fazer. O país cresce? Evidente que sim, mas a democracia continua mambembe. A sociedade continua sem possibilida de auto-determinação. Continuamos refens do poder político, dos contatos privilegiados, da falta de poder de reação. Em troca disto tudo, nos maravilhamos com o possível trem-bala rio-são paulo ou as nossas olímpiadas tão sonhadas. Não sou contra a Copa ou as Olímpiadas, acho maravilhoso, como também não sou contra a Osesp e o salário do maestro (ex) de 125 mil reais mensais. Como diz o Lula, não é porque temos problemas que não podemos realizar coisas grandes. Lula tem toda a razão, mas também não podemos ignorar  o que se passa de errado. Pior, substituir democracia por modernidade lega ao povo a ignorância do conformismo. E há algo pior do que isso? Falta esperança quando a pessoa diz "rouba mas faz". Há algo mais triste do que isso? Isso é fim de carreira, é jogar a toalha.


Falha o governo também na auto crítica. Neste ponto, falha a mídia simpatizante igualmente. Agora, prefiro fazer uma digressão. Em termos de mídia simpatizante, nada melhor que Paulo Henrique Amorim. O seu blog é um assombro. Apesar de achar, tal qual a crítica que eles fazem da elite paulista (separatista, centrada no prŕoprio umbigo), que o blog peca pela sãopaulocentrismo. Mas, em todo o caso, PHA faz um trabalho extremamente salutar. As críticas que eu dirigi a ele neste blog não se de maneira nenhuma com o intuito de apagar sua importância.Essas críticas são as mesmas sobre o ufanismo exacerbado. Finita a digressão, digo que PHA falha nesse aspecto. E o defeito é de forma e não de conteúdo. Explico melhor: quando o Brasil cresce, exemplo de manchete em letras garrafais é "Brasil é um sucesso". Isto compreende o governo. Apesar de não implícito, fica na cara que o elogio é ao governo brasileiro. Mas quando se trata de denunciar a perseguição lamentável que o atual diretor da PF juntamente com a conivência do Ministro da Justiça faz,  a denúncia é feita com extrema competência, mas sem aquele caráter global que envolve toda a administração. Ora, porque o êxito é globalizado e a vergonha é localizada? Ainda mais no caso em que são perseguidos o delegado Protógenes, o juiz De Sanctis por terem ousado prender o todo poderoso Daniel Dantas. Além disso, o perseguidor é o diretor da PF senhor Correia, acusado de torturar empregada doméstica. Um lixo. Mas quem escolhe o diretor? O ministro-maravilha Tarso Genro. E o ministro-maravilha é componente do ministério do governo federal. São os cargos de confiança mais importantes do Estado de cuja escolha é confiada ao Presidente. Porque não globalizar neste caso? Afinal, temos um governo de Lula no qual, após um periodo de fantástica operações da PF para capturar meliantes do colarinho branco, a PF misteriosamente é posta sob novas diretrizes, nas quais ninguém é preso, os justos são perseguidos e o ministro da justiça assiste sentado. Novamente, perdemos a batalha pra corrupção. Tem pão na casa da dona Maria, mas tem corrupção limpa (isso é possível?) e incólume na casa do seu Dantas! Temos a petrobrás (a modernidade) e temos Sarney no senado! Temos até Collor cantando Lula-lá! É uma festa.


No momento estes são os fatores chaves que eu identifico como problemáticos no governo: a coexistência ao invés do enfrentamento (não precisa ser aberto, não precisa ser burro, mas paulatino, lento, porém eficaz), a substituição do potencial democrático pela modernização e o ufanismo excessivo atrelado ao ciclopismo  (basicamente a arte de ver seletivamente e ignorar aberrações gritantes) que  faz ausente elementos tão necessários para que o Brasil não seja o país do futuro simplesmente, mas o NOSSO país do futuro, país em nossas mãos, e não nas mãos de banqueiros corruptos e políticos egoístas.

Claro que, para toda essa saga que eu descrevi, teve de haver um amadurecimento pessoal da minha parte, não bastando apenas constatações empíricas. Compreender um pouco mais do jogo político, mudar certas concepções, a fim de entender mais e buscar soluções mais realistas e coerentes para a sociedade. Posso esclarecer hoje finalmente ( e me ufanar, com comedimento) que meu posicionamento político é de apoio ao governo Lula, pois só através dele ( ou de sua provável sucessora) teremos chance de mudar as coisas na ordem do dia. O governo continua ciclópico mas hoje a diferença talvez seja que, de uma aversão desencantada, eu tenho passado a entendê-lo como uma possibilidade em progresso: por mais falha que seja, ainda há uma esperança de dias melhores, ao contrário do que há em administrações egocêntricas. Ao invés do ciclopismo ser um fator fatalista, sobrevejo no governo um elemento anterior a ele que me dá esperanças. Talvez seja uma luz de retidão moral e idealismo honesto por detrás do próprio comportamento caolho.  Este então seria um elemento que nubla a feição elementar do governo Lula e contra o qual toda a força deve ser usada. Fica-se a impressão, no entanto, mais forte ainda de que o governo inteiro depende de uma pessoa só, o que não é bom.

Pra terminar, por que dar o nome certo às coisas me ajudou? Porque  só identificando os atos é possível proceder em uma compreensão que não gere imputações por extensão e numa tentativa de ver além do que nos é mostrado.  Assim eu tenho também condições de lutar honestamente e sem extremismos pelas conquistas salutares das mais espetaculares deste governo. Além do mais, a figura do Lula me emociona e me inspira confiança. Talvez no dia em que isso se perder, minha fé neste governo se dissipe também.

Esse relato foi mesmo mais uma vontade de dividir com meus exíguos leitores uma experiência de evolução de uma crítica individual sobre o nosso governo. Ele pode ter incongruências já que o fato de eu escrever sobre algo que se deu na minha cabeça durante um intervalo considerável de tempo serve também para eu depurar minhas memórias e conceitos além de explicitar para mim mesmo o quanto eu sei de mim e da minha caminhada. Peço então, aos meus exíguos leitores, um amistoso exercício de compreensão em função disto.

sábado, 24 de outubro de 2009

Sobre a arte

No dia 9 de setembro deste ano eu fui ver OSESP tocar a última ópera da temporada: O cavaleiro da rosa. Uma obra lindíssima tocada por uma orquestra inspirada acompanhando cantoras (porque as óperas de Strauss são basicamente óperas para cantoras) que, em estado de graça, vocalizaram as idéias da partitura da melhor maneira possível. A grande exceção masculina no elenco dominado por mulheres é o personagem do Barão Ochs, que na ocasião foi animado soberbamente pelo baixo Franz Hawlatta. O final do segundo ato, no qual o barão tem o palco só pra si, foi de botar o teatro a baixo. Mas acho que, mesmo sendo uma comédia com pitadas de melancolia, o momento orgástico da obra é o trio final, dramático e intenso como nunca, no qual a Marechala, o Cavaleiro e a jovem Sophie cantam, simultaneamente a alegria de um casal que se forma e a tristeza a de um casal que termina, assim como aludem à percepção do tempo, implacável para com todos. Este trio final foi o Ó. Ouvir e , porque não, ver aquele som todo ecoando pelas paredes da sala.                                                                    

Difícil exprimir em palavras a sensação do momento em que a música eleva-se por si própria sobre a platéia, parecendo ganhar vida (ou perder, dependendo do momento). Mas sei dizer que foi genial. A orquestra trabalhou muito bem sob a regência de Sir Richard Armstrong e a impressão dá, ao término da récita, é de que por um momento você se sentiu especial em presenciar algo. E isso, hoje em dia, em tempos de pasteurização cultural e culto à burrice e a insensibilidade, é coisa por demais rara.

Hoje, dia 24 de outubro, assisti um belo filme chamado O Puxador de Riquixá. Esse filme é de 1958, dirigido por Hiroshi Inagaki. Foi ganhador do Leão de Ouro no festival de Veneza do mesmo ano. Belos filmes hoje em dia são raros. Negócio é recorrer ao passado. Este filme é bem como uma poesia: sútil. E são nessas sutilezas que o diretor constrói um roteiro baseado em um dos personagens mais cativantes que já vi, Matsu, interpretado por um maravilhoso Toshiro Mifune. O puxador de riquixá bronco e sem estudo de quem emana uma humanidade tão grande quanto oculta. A história gira em torno de sua relação com uma mãe recentemente viúva e seu filho. Não sou dos maiores especialistas em cinema, mas gostei da direção de Inagaki, desde o plano de câmera da primeira cena, viajando do teto para filmar os personagens através das portas do cômodo, até a cena em que Matsu ignora o seu passageiro para atenção ao menino na rua. A trilha sonora é inspiradora assim como a fotografia cumpre bem o seu papel.

Tá certo que é um filme velho que pode causar resistência do possível expectador, mas acho que deve se fazer um esforço para fugir do comodismo e se desafiar com algo que não venha da tão pobre e imediatista indústria cultural da atualisade. Outro dia quero falar um pouco do porque que eu acho que as pessoas resistem à arte tido como complexa ou elitista. Por hoje chega... Escrevi sobre filme e música hoje porque são coisas que muito me agradam e também porque , apesar da vontade, de escrever sobre política, sociedade e etc, não é todo dia que se tem disposição pra avaliar a falta de inteligência que ingessa a nossa pobre sociedade.

domingo, 4 de outubro de 2009

Honduras

       Honduras é um caso sintomático da dicotomia midiática e ideológica com pitadas de ciência jurídica. Honduras é um país subalterno historicamente pressionado por elites que se refestelam sobre a grande massa oprimida. Surge um presidente que resolve jogar do lado dos oprimidos e uma crise se instaura. Nenhuma surpresa. O que se segue após sim é um confronto dos grandes.

       Golpe ou não golpe?

     Zelaya queria convocar uma constituinte. Dalmo Dallari menciona em ser artigo para o OI que se tratava de tentativa de reforma. O principal escopo de Zelaya era a permanência no poder. Dallari mantém a coerência quando nega, tecnicamente, a existência de um golpe pois uma reforma que pretendesse mudar a norma que impede a reeleição do presidente (cláusula pétrea, Art. 239) ensejaria sanção para o propoente: afastamento do cargo e impedimento de exercer qualquer função pública por dez anos. Nesta norma vê-se claramente uma preocupação com a manutenção democrática. O problema com o argumento de Dallari é que não se tratava de reforma e sim de consultar a população para a feitura de nova carta constitucional. E tal discrepância retira fatalmente a credibilidade de seu argumento.

       Paulo César Negrão de Lacerda, procurador da fazenda nacional, em artigo para o CONJUR, faz o contraponto ao afirmar que houve golpe uma vez que o due process of law não teria sido respeitado. Lacerda se mostra espantado com a celeridade inédita de um pedido impetrado pelo MP de Honduras na sexta que foi consumado no domingo próximo, pegando o presidente hondurenho literalmente de calças curtas, prendendo e exilando-o ilegalmente. Não houve chance para o princípio ultra básico da ampla defesa e do contraditório, configurando um flagrante desrespeito a este mesma constituição que os opositores de Zelaya dizem defender. Além disso, por se tratar de convocar o poder constituinte originário, Zelaya nada queria com reforma do famigerado artigo 239. Tecnicamente, não haveria motivos para sustentação do afastamento do presidente hondurenho segundo Lacerda.

       Neste caso, parece que o procurador da fazenda nacional ganhar por K.O.

       Desdobramentos políticos

      Complicado mesmo é analizar a dicotomia ideológica do episódio. De fato, houve um golpe de estado, tecnicamente. Não respeitaram os direitos do presidente eleito por sufrágio universal. Ao que parece, na primeira oportunidade que surgiu, a direita hondurenha aproveitou o cheiro (somente cheiro) de inconstitucionalidade exalado pela proposta de Zelaya e fabricaram todo um incêndio para conseguir limar o presidente de seu posto. Puro factóide. A direita, elitista, indecente, mais uma vez trabalha usando de ardil para conseguir seus propósitos. Até uma carta de renúncia supostamente redigida pelo presidente deposto, evidentemente falsa, foi parar nas mãos das autoridades. Quem lembra da ditadura no brasil não esquece que os golpistas são trapalhões.  Gente  ridicula travestida na imponência da ordem e da razão. Raramente trabalham com seriedade. Mesmo porque dar um golpe não é coisa de gente séria. Da mesma maneira ocorreu em Honduras. A direita meteu os pés pelas mãos no fragor de agarrar com todas as forças a pífia oportunidade de retirar Zelaya no seu posto de direito. Nem mesmo o embasamento legal apresentado pelo MP ao Poder Judiciário hondurenho continha a denúncia de violação do art. 239. Esta alegação se deu depois do fato consumado. Uma tristeza absoluta.

       Fugindo da síndrome de ciclope (que só sabe enxergar um ponto de vista, veja artigo anterior), cabe analisar as ações do senhor Zelaya também. Quem é este senhor? O sujeito surge caindo nos braços do povo com um discurso , ao que me parece, tipicamente chavista. Como anteriormente dito e redito, a democracia é impessoalidade. Será mesmo que este senhor quer preservar a impessoalidade da instituição democrática que é a chefia do poder executivo? Não me parece que seja esse o objetivo de Zelaya. Não me parece, ao vê-lo esparramado no sofá da embaixada brasileira, que seja um caso de seriedade típica de um presidente que sabe o que está fazendo. Não imagino Lula em tão pretenciosa posição. O caso dá a impressão de mais um arroubo assistencialista, populista, típico da falta de seriedade que acometeu certos países da américa latina. Troca-se a direita suja por uma esquerda burra. Qual a consequência do culto à personalidade? A concentração de poder. E qual a consequência da concentração do poder? Arbitrariedade. Tão claro quanto a luz do sol é perceber que no caso desta política chavista concede-se mais bens de vida para o povo em troca de uma inflação de poderio do poder executivo. A tripartição dos poderes derretem e a população fica a mercê da boa vontade política. E nada pior do que  depender da boa vontade dos outros. A conclusão é simples: se não houver boa vontade, o povo entra pelo cano. E é ingênuo quem acha que todas as pessoas que se agreguem a uma máquina estatal em tais condições vão conservar, ad perpetum, boas intenções. Óbvio que não se pode culpar o povo faminto por gostar de tais mudanças. No entanto, sabe-se que isto não é muito inteligente. Mudança sim, mas da forma correta. Um presidente que tenha intenções de se perpetuar não é representante democrático. É lamentável, mas pragmaticamente só se pode lamentar que algo assim ocorra em Honduras. O que não dá para engulir são intelectuais brasileiros louvando o chavismo ou o golpismo de direita cegamente.  Ignorando a complexidade dos fatos. Troca-se uma ditadura por outra. O povo permanece bestificado, porém saciado. Se no entanto, Zelaya não apresentar esta queda pelo chavismo na continuidade, eu retiro o que eu disse em relação a ele (não ao chavismo) e me resigno.

        Um digressão: Zelaya tem todo o direito de ajudar o seu povo. Tem todo o direito de continuar no poder (de onde não deveria ter saído). Proponho para reflexão a seguinte questão. Qual a diferença de reformar uma cláusula da constituição e reformar ela inteira? No final das contas, teremos uma relativização do princípio democrático da rotatividade presidencial. Um povo, como Zelaya mesmo diz, tem todo o direito de se auto-governar. Mas até que ponto vai este direito? Se manter a rotatividade é vital para uma democracia e o povo quer que isto seja extinto, qual a legitimidade racional de tal conduta?  Talvez pudesse haver um alargamento do tempo do mandato, quem sabe a instituição de apenas uma reeleição. Mesmo assim, fica-se em grave impasse pois, se de um lado conserva-se o direito do povo efetivar sua auto-soberania através do fazimento de nova carta magna, do outro pode ser que as aspirações populares, movidas por paixões momentâneas, simplesmente levem a instituir normas que mais tarde resultem na degola de seu próprio direito de influir nos rumos da nação. Isto apontas para um dos impasses da auto-soberania popular ainda sem repostas definitivas.

       Voltando ao assunto. Na minha opinião, nem a direita golpista hondurenha e nem Zelaya se salvam. Ambos padecem de defeitos gravíssimos. A primeira é suja e o segundo é burro. O segundo é apenas menos pior. Nada mais. Menos pior porque vai assistir a população diretamente em relação aos gêneros básicos para uma vida digna. Mas ainda assim ruim porque mantém este povo no cabresto, a mercê da boa vontade política. Talvez seja um Zelaya, tal como ele se concebe hoje, necessário para uma população famélica, mas como algo emergencial. Jamais deve ser considerado como a saída definitiva, como a dádiva dos céus. E isto deve ser considerado pelos intelectuais.

      E a mídia???       


      Mas a mídia.... ó a mídia! De Globo a PHA, não há espaço para complexões. Há espaço só para a síndrome de ciclope. A globo e comparsas porque interessa detonar o presidente Lula. São hours concours. Não há motivo de esperar idoneidade da mídia direitista brasileira. Já de PHA espera-se um pouco mais. É certo denunciar o risível Jornal Nacional porque noticia o governo golpista de Honduras como "interino". Mas é frustrante não ver aquele acréscimo tão necessário para a formação de consciência de uma população que, parte por culpa dela e parte não, continua "impávida" frente aos acontecimentos do dia a dia.

sábado, 3 de outubro de 2009

O Ciclope ataca!

       James joyce chamaria de Ciclope. Em sua interminável epopéia (e isso não é demérito) Ulisses, aquele que é realcionado com a figura mitológica é o sujeito que importuna Leopold Bloom, simbolizando a arrogância e, principalmente, a incapacidade de aceitar opiniões diferentes, de ver as coisas sob diferentes prismas. Os Ciclopes de hoje são a mídia. Todas.


       A midia elitista porque defende o patriarcado ruralista e empresarial além do patriciado político historicamente identificado com fisiologismo, clientelismo, corrupção e desprezo pelo povo. A midia de esquerda (não toda ela)  porque boia em um espécie de êxtase, ao defender o governo Lula e suas ramificações como se fossem a personanificação do corpo de santos católicos encarnados de uma só vez em plena terra brasileira.


       Paulo Henrique Amorim (PHA), ao que parece o capitão dessa mídia eletrônica de esquerda, é um perfeito exemplo. Sim, o Enem foi fraudado. A gráfica pertence ao grupo Folha. Os meliantes que tentaram vender a informação o fizeram de forma muito esquisita. Pode ser uma tentativa de sabotagem da direita? Claro. A direita se identifica com a falta de decência. Mas também pode haver alguém simplesmente corrompido pelo dinheiro que tenha feito isto? Mas é claro também. Pode ser alguém ligado a administração pública? Esta mesma administração pública pela qual, segundo PHA, parece haver um virus de probidade moral que se espraia de modo alucinante por todos os tentáculos da estrutura estatal. Também pode ser. PHA em conferência diz que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) descobriu que o Sarney é o Sarney. Descobriu por interesses próprios (derrubar o Lula). Mas e o governo Lula, não sabe quem é o Sarney? PHA desce a lenha em tudo que não tem cheiro de partido da situação. Sarney não tem cheiro de situação. Sarney é o cara das concessões da Globo (ponta de lança dos endemoniados). Sarney é o senhor feudal, anacrônico. O governo atuar em benefício da vida política de tão deletério cidadão é simplesmente ignorado pela mídia de esquerda PHA. Os comentários postados tanto no blog de PHA quanto no Observatório da Notícia (OI) indicam que se é pra manter a estabilidade do governo Lula, vale até apertar a mão do diabo. Sarney, logo, passou batido através da benção dos amorinistas. Vou chamar de amorinistas não em desconsideração dos outros jornalistas que seguem a mesma linha, mas por questão de prática mesmo e de preferência: sim, discordo de PHA em certas questões mas o admiro em relação à outras. É este tipo de aliança que compõe a política de concessão/contensão que considero o buraco negro que pode arrastar o Brasil para a mediocridade novamente.
      
       O governo Lula, junto com as conquistas históricas, empreendeu uma política de convivência pacífica com a Corja. A Corja é formada por políticos como Sarney. O fato, como em post anterior já disse, é que Lula passa e a Corja permanece. A Corja não tem nome próprio, não tem rosto. Ela se esgueira pelos cantos, presente em todos os lugares. Associar-se a ela é apertar a mão do diabo mesmo porque a Corja é a legião à qual Lúcifer se referia. Os contra-argumentos existem: o governo faz o que pode, é necessário para dar movimento às mudanças. Repito: o governo Lula passa e a Corja fica. A Corja melhor se assenta no PMDB. Este partido não tem cara, não tem personalidade. É uma massa amorfa. E os perigos se escondem melhor onde não se sabe quem combater. A Corja mostra a cara no PSDB e no DEM.


       O governo institui a política de coexistência. E esta coexistência é simplesmente ignorada pelos amorinistas. PHA chega a falar em conferências sobre a coexistência em relação a mídia, mas jamais em seu blog sobre o campo político. Repito: isto aqui é uma democracia, fazer a população se auto-governar é mais importante do que malhar a Globo.


       As utopias existem para serem perseguidas. O preço a se pagar depois pode ser caro demais. Tudo o que PHA diz deve ser dito. Mas não contemplar realmente o câncer, a zona do agrião da política brasileira é realmente perder a oportunidade de subir de patamar na luta contra o elitismo e pressão classicista.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio 2016!

       Hoje o nosso presidente chorou. Hoje o Brasil, tal qual o presidente disse, passou as barreiras de uma espécie de maioridade desenvolvimentista. Foi uma das maiores vitórias geopolíticas do Brasil. Foi talvez a maior vitória do Brasil em uma competição de política e economia internacional não-violenta. E ainda por cima, contra adversários indiscutivelmente poderosos. O Brasil venceu a nata. O Brasil deu o primeiro passo para provar a todos que pode.

       Certamente, o desabafo do presidente Lula fala por si próprio. Não há o que acrescentar às palavras dele diante das câmeras. A efusividade foi proporcional à vitória. Confesso que a princípio a possibilidade de ser sede dos Jogos não me comovia. Sou do tipo radical. Radical porque não me agrada a idéia de investir em jogos caros, estruturas complexas e logísticas avançadas ao mesmo tempo que as pessoas morrem de fome. É difícil se animar com os Jogos não tendo teto, não tendo comida, nem cidadania. No entanto também reconheço que esta postura radical perpassa pelo idealismo. E como é o normal dos idealismos, são impossíveis de alçancar em questão de décadas e talvez acabem não sendo viáveis empiracamente no final das contas. Mas como ensinava Platão, não nos anima de saber que lutamos por eles? Este é o sentido...

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       A verdade é que o Brasil cresce como nunca. Talvez a escolha do Rio para sede dos Jogos seja a vitória governista que sepulte a oposição em relação a política nacional . A concorrência pela presidência fica muito mais difícil tendo em vista que o opositor, provavelmente o Serra, tenha contra si um candidato amplamente apoiado, com um governo vencedor nos campos da economia e da assistência social, que apresenta sucessivas taxas de crescimento, que controla a inflação e diminui o desemprego. O Serra com seus arroubos de autoritarismo junto com a turma elitista de mentalidade tacanha parecem não ser páreos para a candidata de Lula. Podia até não ser a Dilma!

       O Brasil venceu, não tenha dúvida.  Como eu havia dito, a candidatura do Rio não me comovia, mas também não me levou a torcer contra.  Todavia, confesso que ver o nosso presidente se mostrando humano foi um alento para o espírito. Ao contrário dos comentários sebosos, distantes, falsamente surpresos e programados da mídia televisiva, aquele choro é uma coisa simplesmente bonita. É de uma humanidade grandiosa. É uma insígnia de vencedor. Parece que por um breve momento, o colosso burocrático adquire uma feição humana, que chora, sofre e vibra no final da provação. Por um breve momento, o Estado se humaniza, se identifica com o povo. Claro que é característica do Lula fazer discursos viscerais mas aquele choro de criança é evento único.

       Apesar das ressalvas, terminei por me alegrar pela vitória do Rio.

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       O presidente, nas entrevistas, afirmou ter provado que o Brasil consegue. Disse que não é porque temos pobreza que não conseguiriamos nos susperar. Lula falou contra aqueles que acham que defeitos sociais são a razão para não termos Jogos Olímpicos. Trata-se de uma questão de direcionamento de recursos: segundo eles, há coisas mais importantes do que jogos suntuosos. Não vejo razões de discordar do Presidente Lula com relação a esse tipo de crítica, mas também reconheço a razoabilidade da crítica criticada. No entanto, gostaria de apresentar uma outra visão crítica da condução política brasileira aproveitando a conexão com os Jogos Olímpicos. Lula falou sobre o Brasil superar sua sina de subalterno, de incapaz de ascender. Desenvolverei meu raciocínio sob este prisma.
       
       Acredito na capacidade deste país. Estas pessoas, tão sofridas e achincalhadas por séculos, podem muito mais do que os elitistas permitem que elas mostrem. Portanto, acredito também que quem pense que falta ao brasileiro capacidade sofre de severa estupidez e/ou má-fé. E é contra estes seres de consciência limitada que considero de fundamental importância criar mecanismos para que a população se defenda. Explico melhor: o governo Lula é indiscutivelmente vencedor. Todavia as políticas de promoção de bem-estar são instituidas unilateralmente pelo governo. A população, após o voto na eleição, permanece numa inércia absoluta assistindo à bonança de forma bestificada, como se fosse uma dádiva enviada diretamente do céu (e é de certa maneira). Não se criou um costume de pressão por medidas. Se um sistema de tomada de decisões é fomentado e começa a dar resultados, é dado um passo enorme rumo ao auto-governo da população. Se trata de efetivar uma soberania que anda caduca e de reavivar uma democracia que mais parece aristocracia.

       O presidente Lula é muito melhor que seus colegas trapalhões da América Latina. Nem Chaves, nem Morales, nem Zelaya. Lula é muito mais lúcido, mais pragmático e com um senso de democracia mais sólido do que estas lamentáveis figuras. Com Lula não há chances de perpetuação no poder. Ele sabe o real sentido da vivência democrática. Por isso mesmo é importante lembrar que na democracia não há lugar para cultos à personalidade. Não há um salvador perpétuo. As instituições democráticas são mais importantes que o líder e este precisa salvaguardá-las. Com isto quero dizer que o Lula não é eterno. As conquistas de seu governo são frutos de unilateralidade, ou seja, de boa vontade. Não se originam de pressão genuína de uma sociedade organizada (o único ato, friso, é o voto uma vez a cada 2 anos). Claro que é difícil vislumbrar qualquer governo, por mais elitista que seja, que consiga se eleger abolindo o bolsa família, mas é por demais evidente que muito ainda se tem de fazer para expurgar a corrupção e o elitismo da nossa nação. E é neste ponto precisamente que reside a importância de instituir sob pena de se perder as conquistas lulistas com o passar do tempo. O Lula sabe, a democracia é a impessoalidade governamental sendimentada sobre uma comunidade atuante. Sem ação, há reificação do ser humano em prol de poucas cabeças destacadas da grande sociabilidade. A impressão que me deixa é que estamos perdendo a oportunidade de empreender este projeto. Como diz o jornalista Mino Carta, não teremos tão cedo um ex-metalúrgico na presidência com quem a população se identifica automaticamente. 

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      A vitória do governo Lula é evidente diante da tristeza que foi a vida administrativa pública do Brasil em 500 anos. No entanto é visível que as concessões, sempre tomadas a revelia do povo, preservaram o abjeto sistema de contensões elitistas que se perpetua desde sempre. Pretendo escrever sobre outros elementos do esquema contenção-concessão na continuidade. Hoje, queria mesmo é usar este memorável dia para saudar e também advertir.

       O governo Lula é de uma complexidade impossível de abarcar em um post de Blog. Espero ter me feito claro. Não se trata de demonizar o Rio como sede dos Jogos Olímpicos e sim lembrar de um hiato político-estrutural que pode fazer retroceder até a alegria de celebrar o maior evento esportivo do planeta. O meu único objetivo é apontar esta complexidade, esta duplicidade que transita entre o monumental e o reacionário. 

       Hoje, contudo, foi o dia do monumental. Emocionemo-nos com Lula,  o presidente humano. Ele merece. O Brasil merece.