No dia 9 de setembro deste ano eu fui ver OSESP tocar a última ópera da temporada: O cavaleiro da rosa. Uma obra lindíssima tocada por uma orquestra inspirada acompanhando cantoras (porque as óperas de Strauss são basicamente óperas para cantoras) que, em estado de graça, vocalizaram as idéias da partitura da melhor maneira possível. A grande exceção masculina no elenco dominado por mulheres é o personagem do Barão Ochs, que na ocasião foi animado soberbamente pelo baixo Franz Hawlatta. O final do segundo ato, no qual o barão tem o palco só pra si, foi de botar o teatro a baixo. Mas acho que, mesmo sendo uma comédia com pitadas de melancolia, o momento orgástico da obra é o trio final, dramático e intenso como nunca, no qual a Marechala, o Cavaleiro e a jovem Sophie cantam, simultaneamente a alegria de um casal que se forma e a tristeza a de um casal que termina, assim como aludem à percepção do tempo, implacável para com todos. Este trio final foi o Ó. Ouvir e , porque não, ver aquele som todo ecoando pelas paredes da sala.
Difícil exprimir em palavras a sensação do momento em que a música eleva-se por si própria sobre a platéia, parecendo ganhar vida (ou perder, dependendo do momento). Mas sei dizer que foi genial. A orquestra trabalhou muito bem sob a regência de Sir Richard Armstrong e a impressão dá, ao término da récita, é de que por um momento você se sentiu especial em presenciar algo. E isso, hoje em dia, em tempos de pasteurização cultural e culto à burrice e a insensibilidade, é coisa por demais rara.
Hoje, dia 24 de outubro, assisti um belo filme chamado O Puxador de Riquixá. Esse filme é de 1958, dirigido por Hiroshi Inagaki. Foi ganhador do Leão de Ouro no festival de Veneza do mesmo ano. Belos filmes hoje em dia são raros. Negócio é recorrer ao passado. Este filme é bem como uma poesia: sútil. E são nessas sutilezas que o diretor constrói um roteiro baseado em um dos personagens mais cativantes que já vi, Matsu, interpretado por um maravilhoso Toshiro Mifune. O puxador de riquixá bronco e sem estudo de quem emana uma humanidade tão grande quanto oculta. A história gira em torno de sua relação com uma mãe recentemente viúva e seu filho. Não sou dos maiores especialistas em cinema, mas gostei da direção de Inagaki, desde o plano de câmera da primeira cena, viajando do teto para filmar os personagens através das portas do cômodo, até a cena em que Matsu ignora o seu passageiro para atenção ao menino na rua. A trilha sonora é inspiradora assim como a fotografia cumpre bem o seu papel.
Tá certo que é um filme velho que pode causar resistência do possível expectador, mas acho que deve se fazer um esforço para fugir do comodismo e se desafiar com algo que não venha da tão pobre e imediatista indústria cultural da atualisade. Outro dia quero falar um pouco do porque que eu acho que as pessoas resistem à arte tido como complexa ou elitista. Por hoje chega... Escrevi sobre filme e música hoje porque são coisas que muito me agradam e também porque , apesar da vontade, de escrever sobre política, sociedade e etc, não é todo dia que se tem disposição pra avaliar a falta de inteligência que ingessa a nossa pobre sociedade.
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